O Cenário favorável do fim da 2 a . Guerra Mundial
Em 1942, quando foi fundada a Aerovias Brasil, havia apenas quatro empresas em destaque no cenário dos transportes aéreos nacionais. A Varig e a Condor Syndikat, fundadas em 1927, a Panair do Brasil – ex-NYRBA, rebatizada pela Pan American Airways em 1930 - e a Vasp, fundada em 1.933.
Por volta de 1945, o final da 2 a . Guerra Mundial dá início a uma fase de grande expansão na Aviação Comercial Brasileira. Uma onda de otimismo e confiança gerada pela vitória dos países aliados associada à grande disponibilidade de aeronaves DC-3 (batizadas de C-47 na aviação militar), faz o número de empresas aéreas operando no país chegar a cinqüenta e cinco.
Em 1943, o empresário paulistano Vicente Mammana Neto, apaixonado por aviação, decidiu criar mais uma empresa aérea paulista. Nascia a Companhia Santista de Aviação, que operaria com uma frota de aviões Stinson Reliant. A idéia, no entanto não foi para frente, por vários motivos. Mas o desejo de Mammana em abrir uma empresa aérea continuava.
Em dezembro de 1945 finalmente ele pode ver seus planos não somente concretizados, mas transformados num dos empreendimentos de maior sucesso na aviação comercial brasileira: a REAL - Redes Estaduais Aéreas Ltda. Mammana, porém, não estava sozinho, contando com a valiosa ajuda do Comandante Linneu Gomes, um ex-piloto da TACA.
Douglas DC-3 – Cortesia: Revista Flap Internacional
Um começo de Sorte
No dia 7 de fevereiro de 1946, o primeiro vôo foi realizado entre os aeroportos de Congonhas e Santos Dumont, com Linneu no comando. Naquele momento, a empresa já era conhecida pelo nome de REAL Transportes Aéreos e sua frota era composta por três Douglas DC-3. Antes do final do primeiro semestre de 1946, a REAL recebia autorização para ampliar suas rotas para Curitiba e já tinha três vôos diários regulares para o Rio de Janeiro.
No final daquele ano, foi aumentada a capacidade oferecida, com a introdução dos dois primeiros Bristol 170 no mercado brasileiro. Os bimotores ingleses eram, naquele momento, os aviões de maior capacidade no país, transportando até 36 passageiros. Infelizmente sua operação não durou muito tempo, já que pouco mais de um ano depois da sua estréia foram descobertas falhas estruturais em um deles, levando à sua aposentadoria prematura. Como já havia mais de dez DC-3 em operação, a malha aérea não sofreu muito com a redução da capacidade.
Os aviões da empresa tinham a figura de um coringa desenhada na parte dianteira da fuselagem, fato que é justificado através de duas versões: a primeira, faz alusão a intimidade que Linneu Gomes tinha com as cartas, tendo ganhado o dinheiro para a compra do primeiro avião da empresa numa mesa de pôquer. A segunda versão, diz que a figura seria a representação de um dos funcionários da empresa, um anão corcunda, visto por muitos como um "mascote da sorte" do próprio Linneu.
De 1946 até 1955, a história da REAL foi marcada por sua primeira grande expansão, feita através da compra de outras empresas menores. Em 1948, Linneu Gomes adquiriu a Linhas Aéreas Wright. Dois anos depois foi a vez da LAN - Linhas Aéreas NATAL. Com essa compra, a frota da REAL chegou a 20 Douglas DC-3 e com a compra da LATB - Linha Aérea Transcontinental Brasileira, em agosto de 1951, a REAL expandiu consideravelmente sua malha na região nordeste do país. Entre 1954 e 1956 foram adquiridas também a Aerovias Brasil e a Transporte Aéreo Nacional. Finalmente, em 1957 a REAL adquiriu, das mãos de Omar Fontana, 50% do capital da Sadia e em contrapartida, Omar passou a ocupar um cargo de diretoria na REAL.
Frota da REAL – Cortesia: Revista Flap Internacional
Logo após a incorporação dessas empresas, a frota da REAL chegou a invejáveis 117 aviões, dentre eles 86 Douglas DC-3 e 12 Convair, sendo seis CV-340 e seis CV-440. Tais números a colocaram em 7° lugar no ranking da IATA em relação ao tamanho da frota, a mais alta posição já ocupada por uma empresa aérea brasileira.
Crescendo para fora
As primeiras rotas internacionais foram abertas em 1951, com vôos para o Paraguai. Porém foi a compra dos 87% do capital da Aerovias que levou a REAL a alçar vôos verdadeiramente internacionais. A Aerovias foi aberta em 1942 e praticamente desde sua fundação realizava vôos cargueiros charter entre o Rio de Janeiro e Miami. Em 1947 recebeu a concessão para operar regularmente na rota, graças a acordo bilateral firmado entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil. Por ocasião do negócio com a REAL, a Aerovias era a única a operar para os Estados Unidos. Apesar da compra, a Aerovias continuou operando com sua identidade própria, o mesmo acontecendo com sua coligada AeroNorte, que realizava vôos na região nordeste com bimotores Percival Prince, de origem britânica.
Em setembro de 1956 a rota para Miami foi completada até Chicago. Foi também concluída a compra dos 85% da Nacional. A empresa, fundada em 1947, era a maior operadora doméstica naquele momento, servido nada menos do que 74 localidades com sua frota de 31 Douglas DC-3 e 10 Curtiss C-46 Commando. Assim como no caso da Aerovias, a Nacional manteve sua identidade própria, preservando inclusive sua pintura.
Portanto, em setembro de 1956 a REAL era formada por três grandes estruturas: sua própria, a da Aerovias/Aeronorte e a da Nacional. Foi então criado o Consórcio REAL, que nos três anos seguintes racionalizou a empresa, um trabalho grandioso, levando-se em conta a gama de aviões e rotas operadas. No final, o resultado foi uma densa malha doméstica que oferecia ao mercado brasileiro excelentes conexões a preços acessíveis.
Convair 440 – Cortesia: Revista Flap Internacional
Constellation
No ano de 1960 a melhor aeronave em operação nas rotas domésticas era o Convair 340. Ao todo seis unidades foram recebidas, todas no esquema de pintura original da REAL e que permaneceram em operação ao lado dos confiáveis DC-3, dos DC-4 e dos C-46. Logo depois foram recebidos os primeiros Douglas DC-6B, alocados nas rotas domésticas mais longas, assim como na malha internacional. Com sua introdução foi feita também a primeira grande alteração na pintura da empresa, com a adoção de apenas uma faixa de pintura sobre as janelas, que ao chegar perto do nariz, fazia um zigue-zague, lembrando um raio.
Em julho de 1960 veio uma nova expansão de rotas que seria sua última: com a chegada de quatro novos Constellation, a REAL começou a voar para Tóquio, se transformando na primeira empresa brasileira a realizar travessias sobre o Oceano Pacífico. Em tempos de navegação convencional, muitas vezes astronômica (usando-se de um sextante) a travessia era no mínimo uma grande aventura. Depois de decolar de Los Angeles, eram feitas mais duas escalas (Honolulu e Ilha Wake) antes de chegar ao Japão.
No âmbito doméstico, a REAL teve a primazia de inaugurar serviços para a nova Capital Federal, em Brasília, antes mesmo do término da sua construção. Os primeiros vôos foram feitos em 1957, seguidos, logo depois, pelos vôos da Aerovias.
Final conturbado
Em 1960 a REAL comemorou seu 14° aniversário com a expressiva cifra de 12 milhões de passageiros transportados, voando para sete países e com uma estrutura de dar inveja à outras empresas nacionais. A REAL tinha sua própria escola de formação de pilotos e comissários e a proficiência técnica de seus tripulantes estava entre as melhores. Tinha também o recorde brasileiro de horas de vôo, com mais de um milhão de horas voadas até então. A empresa preparava-se para receber aviões novos e dar os primeiros passos na era do jato: três Lockheed Electra II haviam sido comprados da American Airlines (com opção para mais dois) e os primeiros jatos, quatro Convair 880 estavam encomendados (mais tarde convertidos em três Convair 990 - PP-VJE, PP-VJF, PP-VJG. O Convair 990 – operado pela VARIG após a compra da REAL - foi o maior jato a operar regularmente em Congonhas, até a chegada dos Airbus A - 300 da Cruzeiro em 1980.
Aquele seria o último aniversário da empresa e seus últimos meses de vida foram marcados por diversas controvérsias. Até hoje os verdadeiros motivos que culminaram com sua venda para a VARIG, em 1961, e as condições nas quais o negócio foi realizado são incertas.
De fato a empresa não passava por bons momentos, algo visto principalmente nos livros de caixa. Para completar, o Cmte. Linneu Gomes estava seriamente doente e afastava-se gradativamente da empresa. Além disso, diz-se que "forças ocultas" conspiravam contra a REAL. A compra dos Electras, por exemplo, foi ameaçada por pressões feitas pelos concorrentes junto ao DAC para que os aviões não viessem. Mito ou realidade, o fato é que o DAC enviou nota ao CACEX solicitando o cancelamento da autorização de importação. A importação somente foi feita graças à intervenção do então Presidente Jânio Quadros.
Há quem diga que a compra da REAL pela VARIG foi feita devido a pressões do próprio Jânio, que temendo pela continuidade das atividades da empresa com o agravamento da saúde de Linneu, pretendia salvá-la de uma eventual falência.
A compra acabaria sendo decidida entre Rubem Berta e Linneu Gomes em uma reunião no Aeroporto de Congonhas. Com espantosa rapidez o negócio foi fechado, sendo fixado o valor de mais de 2 bilhões de cruzeiros pela totalidade das ações da empresa.
Ruben Berta, ironicamente, ao tomar o controle da REAL em suas mãos, tentou cancelar a vinda dos Electras. Porém a American Airlines não aceitou desfazer o negócio e os cinco primeiros acabaram entregues, dando início a grandiosa carreira do dead duck (como era chamado por Berta) na Pioneira.
Assim, tão rápido quanto nasceu e cresceu, a Real desapareceu dos céus brasileiros. Uma companhia que veio, cresceu arrebatadoramente, tomando a participação de congêneres já estabelecidas, com grande ousadia e atrevimento, características marcantes do Cmte. Linneu Gomes. Hoje, a praça defronte ao Aeroporto de Congonhas leva seu nome, numa manobra do destino: tanto a Varig como a Vasp ficam sediadas, no aeroporto paulistano, na praça que leva o nome de um de seus mais formidáveis oponentes.
Fonte: baseado no texto de Gianfranco Beting publicado em www.jetsite.com.br